“AS LIÇÕES DA RESPIRAÇÃO”
Pierre Weil (1924-2008)
EMPOLGADO COM PULSAR DA VIDA
“ Devo declarar, já de inicio, que a observação regular da respiração me leva a um entusiasmo sem limites pela vida...”
São inúmeros os aspectos ligados à respiração. Vou descrevê-los a partir de agora, começando pelo que mais atraiu minha atenção: saber quem é que respira
São inúmeros os aspectos ligados à respiração. Vou descrevê-los a partir de agora, começando pelo que mais atraiu minha atenção: saber quem é que respira.
QUEM É QUE RESPIRA?
Ouço de vez em quando as pessoas falando “Eu respiro” ou “ A minha respiração”. Estou convencido hoje de que quem declara isso está equivocado e iludido pelo próprio ego. Se você observar a respiração sem nenhuma interferência, só poderá constatar que existe “algo” que respira no seu corpo, mas esse “algo” com certeza não é você. O máximo que você pode afirmar é algo como: “O meu corpo é respirado” ou, se você se identifica
Se olharmos a questão mais de perto, poderemos distinguir três situações da respiração em relação a nós mesmos. A primeira forma de respirar é automática e inconsciente.A maior parte do tempo a respiração se dá à nossa revelia, sem que saibamos da sua existência. É a respiração inconsciente e involuntária. Essa respiração involuntária pode passar a ser observada por você. Mas quando você passa a observá-la, ela pode ser chamada de respiração automática consciente. Você sabe que está respirando e assiste a ela como se fosse um espetáculo externo, sem nenhuma intervenção sua.
A terceira forma consiste em modificar o ritmo respiratório, acelerando-o ou, pelo contrário, retendo o seu fluxo, por meio da sua vontade. Você pode até decidir parar de respirar por alguns momentos, como se costuma fazer na Ioga. Isso é o que podemos chamar de respiração consciente e voluntária. Só nessa terceira forma de respirar que você pode afirmar que é você que respira. Frequentemente fazemos isso por meio de suspiros, movidos pela necessidade de compensar algum atraso ou de aliviar alguma leve ansiedade.
A distinção entre respiração automática e respiração voluntária encontra justificativa não somente na observação empírica, mas ainda na estrutura do sistema nervoso cérebro espinal. Com efeito, as duas formas de respirar têm centros diferentes de comando no sistema nervoso. A respiração automática tem vários centros situados no bulbo raquidiano. A respiração voluntária situa o seu centro no córtice cerebral.
Teríamos então aqui uma evidência da existência de uma entidade individual que chamamos de eu ou ego e que tem o poder de interferir em movimentos automáticos do sistema nervoso. Quem seria essa entidade?
Por outro lado, a observação consciente, sem intervenção, parece ser efetuada igualmente por esse eu.
Estamos, por conseguinte, diante de uma ação fisiológica, a respiração, que pode ser realizada de modo automático e natural, consciente ou inconsciente, ou de modo voluntário, quer dizer, submetida às ordens do eu ou ego consciente que pode acelerar, diminuir ou reforçar o seu ritmo natural, ou simplesmente observar.
A questão que se apresenta à nossa mente é “quem” desencadeou e mantém durante 24 horas por dia, até o fim da nossa existência, esse ritmo respiratório, sem que seja necessária a nossa intervenção. Essa pergunta desencadeia outras indagações que nos levam a um domínio espiritual e místico.
A QUESTÃO DA EXISTÊNCIA DO “EU” INDIVIDUAL E UNIVERSAL
Do ponto de vista racional e neurológico, tudo se passa, no caso da respiração, como se houvesse dois processos, um automático parecendo mecânico, e outro pessoal, individual e voluntário. Podemos observar de perto esse processo durante a meditação. O método mais comum da meditação de várias escolas consiste em ficar sentado, de coluna ereta, observando a respiração sem interferir nela.
Quando eu medito assim, a observação desse ritmo respiratório pelo meu eu consciente me leva a uma paz, tranqüilidade e. por que não dizer, felicidade acentuadas. Tudo se passa como se eu estivesse diante de uma manifestação do universo, do cosmos, de um ser maior e divino, que desencadeia, dirige e mantém esse ritmo da vida. Compreendo então a distinção que o Hinduismo faz entre Atman e Brahman, entre o que Jung chamou de “Self” individual e de “Self” universal. Brahman ou o Self universal respira dentro do meu corpo; mas Atman ou o “Self” individual pode substituir o primeiro. Eu posso substituir Deus que respira em mim.
Compreendo também o ponto de vista do Advaita Vedanta, que não aceita essa separação, essa dualidade entre Atman e Brahman. Os seus mestres afirmam que Atman é Brahman, e que Brahman é Atman; que eles são tão inseparáveis quanto o são as ondas do mar. A respiração é, na verdade, a mesma, quer seja eu ou o Divino quem respira neste corpo. Neste momento, acabo de completar uma inspiração voluntária, para recuperar o volume perdido por causa da atenção exigida pela redação deste texto; tudo se passou como se houvesse uma continuidade inseparável entre Deus que respira em mim e eu. Sou apenas uma expressão da vontade divina.
Texto do Livro: A Entrega - Pierre Weil/Pensamento
